A LUTA DE MARIZETE



Seis anos e alguns meses se passaram desde aquele dia que Marizete saiu com a sua amiga para um simples passeio, dar uma volta, refrescar a cabeça, jogar conversa fora, contar novidades. Um dia aparentemente normal, até se aproximar delas um homem descalço, acompanhado por um cachorro (cadela) – soube Marizete depois, e que se chamava Freda.

Na verdade era um mendigo, aparentava ser um mendigo. O que teria ele de especial que fez com que Marizete perguntasse a sua amiga: - “quem é?”. - “Podes até não acreditar, mas o cara é advogado” – falou a amiga.

Ele escutou – claro - ao mesmo tempo em que se achegavam, ele e a cachorra, foi puxando do bolso um documento, num gesto não-agressivo, ao contrário, de humilde cansaço, talvez. Era uma carteira da OAB – Ordem dos Advogados do Brasil.

- “Você precisa de ajuda, né?” – falou ela. Ele abaixou os olhos balançando a cabeça num vagaroso sim. - “Mas” – disse, - “gostaria de te mostrar a minha casa”.

Marizete voltou-se para a amiga e falou: - “eu vou!”, - “vou ajudá-lo”. Segundo ela mesma, aquele passo seria o começo de “uma grande luta”.

Ele colocou a mão no ombro dela, assim como um ceguinho faz com o seu guia, e foram-se em busca da tal casa.

- “Nossa!”, “Que susto!”, “Quanta sujeira, naquela casa!” – ela disse. Pior, mendigos e viciados abundavam por todas as peças da grande casa. Morava lá também um menino, que ele disse ser seu filho adotivo.

No dia seguinte Marizete voltou lá, decidida. Ao encontrá-lo falou, de chofre: - “Você quer ser internado?”. Um movimento afirmativo de cabeça, por parte dele, e logo os dois estavam dentro de um táxi, em direção à Colônia Santana. Era o dia 17 de Maio de 2006.

Ela rapidamente descobriu que ele já tinha passagens por aquela Colônia Psiquiátrica e de tratamento para dependentes alcoólicos e de outras drogas. Passou a visitá-lo a cada semana, como se fosse alguém da sua família. Providenciava tudo, roupas, calçados, material de higiene, e via, dia-a-dia, como ele se sentia um homem mais e mais feliz.

Ia cuidando, ao mesmo tempo, da casa, dando ordens, reformando, religando a energia elétrica, a água, reconstruindo o caos. Mas sentia-se tão só! Nenhum dos “agregados” dispunha-se a ajudá-la.

Três meses se passaram desde a internação. Então a alegria do retorno se deu. Explodiram em felicidade mútua.

Seria o começo de uma nova vida para ele! Não havia quase dinheiro, a comida era escassa, mas para tudo Deus daria um jeito, o importante era estar bem – e porque não atuando como advogado?

Ele recolocou-se perante a OAB, na Advocacia Dativa, e os clientes começaram a chegar. Aliás, não paravam de chegar! Mas não havia chances para ele se Marizete não tivesse se disposto a secretariar-lhe completamente a vida.

E ela passou a ser na vida dele, a faz-tudo, o pau-pra-toda-obra, de cozinheira e faxineira à secretária; e mais, também à babá daquele seu filho adotivo.

Os anos se passaram. Duas terríveis recaídas, porém contornáveis. Mas ela acrescentou às suas “atividades” mais uma – a de enfermeira. Administrava também agora a farmácia caseira.

Certo dia, porém, próximo ao Natal, ele, muito feliz, falou-lhe que Deus o tinha curado. A partir de agora, não haveria mais necessidade de medicamentos em sua vida. Ele, na verdade, tinha se tornado crente de uma dessas novas e proliferativas igrejas evangélicas. Mas Marizete era espírita – conhecia razoavelmente as Obras de Allan Kardec. E isso não mudaria, para desgosto e contrariedade dele.

Desse dia em diante uma nuvem sombria se aproximou e fez morada permanente. A agitação e a confusão passaram a dominá-lo, o surto caminhava a passos acelerados – ela via. A recaída pelo álcool com todos os seus desdobramentos naquele psiquismo mais do que complicado era um filme já visto.

Ela pediu socorro. Recorreu como última forma à família dele, que desde muito tempo não admitia vê-lo nem por decreto.

Ela entregou os pontos, estava cansada de tanta luta. Abandonou-o definitivamente, embora seu coração dissesse: “tu volta!”

Foi trabalhar no Hospital de Caridade de Florianópolis, na CliniRim. Passaria 120 pacientes na hemodiálise. Essa era então a sua nova tarefa. E perguntava-se, constantemente, porque, meu Deus, deixei de cuidar de quem amo para atender a tantos que nem conheço?

Ao longo de todos esses anos, Marizete nunca descuidou da sua própria casa, nem do seu único filho, a quem tudo contava. E este lhe dizia: - “Mãe, pare de pensar que o teu lugar, a tua grande tarefa, é cuidar dele!”

Três meses distante dele, que agora, sabia, ele estava novamente internado na Colônia. Ao sair de lá, mais uma vez renovado e com a mente mais clara, imediatamente dirigiu-se a casa dela, propondo-lhe mais um recomeço. - “Tudo será bem diferente!” E Marizete abandonou os seus 120 pacientes da hemodiálise e foi de novo cuidar dele. Agora, as dívidas, segundo calculou, ultrapassavam os cem mil reais. Pior, a casa estava novamente destruída.- “Que luta!” – pensava Marizete.

Determinou que a primeira providência fosse reorganizar o escritório de advocacia. Agora os processos do escritório se espalhavam até pela casa dela, que fazia horas e horas extras para reorganizar tanta bagunça.

- “Mas Deus é fantástico!” O advogado, que antes tinha sido também sargento da Força Aérea Brasileira, recebe uma indenização de duzentos e setenta mil reais! Zeraram-se todas as dívidas! As audiências foram retomadas, tudo voltava ao normal – “mas alegria de pobre dura pouco, doutor!”

Ele decidiu atender ao pedido da irmã (sim, ele tinha uma irmã). Veio morar junto, na casa, a irmã e mais outro adotivo, cria da mãe de ambos – mas que estava vivendo agora com essa irmã. E mais um cachorro.

Ela continuou zelando por tudo, mas ele é quem não conseguia mais dormir. Queixava-se o tempo todo. - “Não dá mais pra agüentar!” – dizia para Marizete.

- “Vamos ao Fórum de Florianópolis, hoje?” – Ele convidou Marizete. Foram, e conversaram sobre tudo, a irmã, esses meninos, sobre essa compulsão dele de ajudar a todos e qualquer mendigo ou pedinte que lhe batessem a porta e permitir que sentassem à mesa, para as refeições. Sem dúvida um gesto bonito, sabia Marizete e que tinha a ver com a Igreja Evangélica a qual ele tinha se filiado. Contudo ela não conseguia esquecer que foram eles também que o convenceram a que abandonasse todos os medicamentos – fruto de muita ignorância e fanatismo! – pensava ela.

Ao saírem do Fórum ele a convida para que no próximo domingo, fossem todos ao Parque Aquático. - “Domingo foi o dia do enterro dele e do filho adotivo.” – disse - !?!?!

No sábado, um dia antes, eles foram à praia. Ele e os dois adotivos. Por volta das 17h30min Marizete recebia a notícia. Estavam mortos, ele e um dos meninos – o dele. Morreram afogados. Ficou desnorteada, feito um zumbi, sem rumo, mas demandou ao Hospital, quando foi se inteirando de mais detalhes. Ele teria tentado salvar o menino que se afogava. E então ambos foram tragados pelas ondas.

Ela estava dando continuidade a tudo, e aos processos, claro. - “Mas teria que repassá-los a outro advogado – Não é mesmo?”

- “Lembro que o menino, antes de saírem para a praia e desaparecerem para sempre, disse, bem alto: Quero ir aonde tenha ondas gigantes! E foram para a Galheta, ao dado da Praia Mole. Isso aconteceu no dia 20 de Novembro de 2011.”

- “Restaram algum e-mail e este conto do Pato – a última coisa, o último gesto dele para mim. Leia, por favor.” O conto, de cunho evangélico, ou melhor, cuja interpretação puxava pelo lado evangélico, concluía: “A vontade de Deus nunca irá levá-lo aonde a graça de Deus não irá protegê-lo”. Sem dúvida bem significativo, pensei.

Marizete, na minha frente, olhar distante, mirando algo além do infinito, rosto tristíssimo, aparência demasiadamente cansada, profunda, sem nenhuma pressa, verdadeira, interrogativa, me disse:

- “Pois então, doutor – o que acha que eu devo fazer agora?”











UMBU


Se confunde na reminiscência
o Umbu e o Zé
o Umbu velho
o Zé Gandaia negro amigo
de cabelos brancos
do tempo da Lei Áurea

A árvore livre
liberta
O negro homem
de ventre livre
livre
a olhar a imensidão
com conhecimento

Gostava de mim, muito mais do que eu do Umbu,
que não compreendia
e só queria explorar
cravava-lhe facas, facões, incontáveis vezes,
a minha pontaria certeira,
com tenência adquirida;
eu, menino orgulhoso,
e o velho, olhava,
ria,
me amava,
era meu pai, meu avô, meu irmão.

Sentado na pedra, perna cruzada,
à moda de quem pita um palheiro,
mas não fumava não, respirava somente o ar puro,
de quem já aprendeu a humildade
de postar-se sem angústias em frente ao Criador.

O Umbu
O velho
meus dois amores de infância.
O vegetal imponente acariciava-me o íntimo,
tudo permitindo, ali no pátio do tio Marçal.
O velho amigo me induzia confiança com seu sorriso matreiro e esperto.

Andava nos pátios
compreendia a todos
fazia o seu fogo,
o seu mate,
tinha garantida a sua bóia,
por condição natural, pois
impôs-se com ser, não precisava de carteira assinada,
não sabia o que era aposentadoria. Vivia e respeitavam-no como a ninguém.
Era livre, mas somente ele o sabia; nós outros, eu, pelo menos,
só soube depois, alguns anos depois, após ter-me defrontado
com algumas agruras da vida.

E o Umbu?
Não sei.
Se eu fosse um gaúcho de verdade eu tinha que estar fazendo uma poesia métrica, perfeita, daquelas de pendurar na parede, o título destacado: VELHO UMBU, e ele, que verdadeiramente amo, desenhado ao fundo, a sua casca macia, amiga, seus contornos bom de afagar, seus galhos, gostoso de abraçar e segurar, mas não consigo, vem a imagem do velho, do negro meu querido Zé Gandaia (José Gandaia), assim pus no convite do casamento, que sei que ele gostou, e chorou, como eu choro agora, de saudades e de amor de abraçar e estreitar no peito.

A imagem do velho sobrepõe-se,
ele na frente, o Umbu atrás.
São distintos, mas estão juntos.
Eu que os faço juntos, como se o Umbu fosse a sombra do Zé, militante dos pátios, varredor de folhas, trazedor dos gravetos para as lareiras e os fogões da vida, representante de um tempo em que a aposentadoria dos campeiros era ainda um presente bom, se exprimia por um trabalho, por demonstrar-nos que somos todos necessários, mesmo velhos, que não somos destinados a apodrecer em asilos, inúteis, sem finalidade, e que não importa uma carteira assinada, uns pilas do INPS, se não nos necessitam mais.

Tempo bom
Do velho e do Umbu
Tempo meu, do meu Sul,
do meu Rio Grande do Sul.


Poema publicado no REMEMORO. Meu promeiro livro - edição independente, no capítulo KAMPARA MOMENTO (momento rural). Uma experiência e tanto, com os seus quinze minutos de glória e tudo.


QUANDO A VIDA ERA UM TANGO

Quando a vida era um tango,
Não dava para concentrar o amor em uma pessoa apenas – não era orgânico.

Quando a vida era um tango, talvez valesse apena ser governador do seu estado –
Não sabíamos tudo sobre a corrupção endêmica.

Quando a vida era um tango, ter medo
Ou ter muita coragem era natural como espirrar – não fazíamos dramas.

Quando a vida era um tango,
O herói que incorporávamos dependia do filme em cartaz.

Quando a vida era um tango, cigarros, charutos, licores, faziam parte do cenário
E não significavam perigo – confiávamos nos americanos e na mídia.

Quando a vida era um tango,
Éramos esquizofrênicos de cara e as drogas (lícitas ou ilícitas) amenizavam a doença social.

Quando a vida era um tango,
O corpo estalando encarava noites, carnavais, bebedeiras – mas levantávamos para trabalhar, com ou sem ressacas homéricas.

Quando a vida era um tango,
A vida era vida,
A morte que se lixasse,
Amigos? Tudo!
Inimigos? Que inimigos?

Depois, quando os tangos terminaram, a vida disparou num samba doido, se fez criativa em blues do Deus Clapton, suicidou-se muitas vezes com Elvis, Janis Joplin, Ellis Regina; e foi misteriosa em Gonzaguinha, tanto quando com o presidente Juscelino Kubitschek.

Agora, descobrimos que é eterna,
Os tangos, principalmente os tangos,
Voltaram,
Com novo sabor.

FAVELA, FOME, EDUCAÇÃO, UM GRITO QUE RESSOA...



“... Quando um político diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olha o povo com olhos semi-cerrados, com um orgulho que fere a nossa sensibilidade.” Carolina Maria de Jesus
“Eu classifico São Paulo assim: O Palácio é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos.” Carolina Maria de Jesus
“... As oito e meia da noite eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre. Quando entro na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quaro de despejo.” Carolina Maria de Jesus
“Como é horrível ver um filho comer e perguntar: “tem mais?”Esta palavra “tem mais” fica oscilando dentro do cérebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais.” Carolina Maria de Jesus



Não se deve perder “o fio da meada”. Imagino que essa expressão tenha fundamento na mitologia grega, mais especificamente no “fio de Ariadne” que salva seu amado e herói Teseu na luta contra o minotauro e o labirinto. As histórias e os mitos nos fazem melhores, nos fortalecem. Deve haver uma relação direta entre povos desenvolvidos e mais saudáveis com boa mitologia e histórias bem contadas e assentadas nesse povo.
É dito e repetido, aqui no Brasil, que nós somos “um país sem memória”. Significa que não temos essa fortaleza que uma boa estrutura mítica e histórica poderia nos dar? Possivelmente. Reli a poucos dias um livro muito muito velho, uma coleção antiga, “Uma Realização Columbus – Para Você, meu filho – Grandes Vocações – Vol. I – Libertadores”. E nesse volume I constavam cinco “libertadores”, dentre os quais TIRADENTES. O escritor dessa biografia é VIRIATO CORRÊA. Essa obra e o jeito maravilhoso de Viriato Corrêa contá-la é emocionante, escrita para jovens e adolescentes, certamente com a finalidade de despertar VALORES.
Se eu fosse responsável pela Educação neste país, esta biografia e obra de Viriato Corrêa seria um dos textos OBRIGATÓRIOS em todas as escolas brasileiras. Outros textos OBRIGATÓRIOS haveria, sem dúvida, e dentre os quais, QUARTO DE DESPEJO, de CAROLINA MARIA DE JESUS. Vocês já leram pinceladas dessa obra no início destes meus escritos.
O que dizer? Na edição que possuo tem uma chamada, na bela e pobre capa: “O grito da favela que tocou a consciência do mundo inteiro!”. Não tocou! Se tivesse repercutido (essa obra é do final dos anos 50 e início dos 60), as favelas do Brasil não teriam se transformado nos cenários da atual e verdadeira calamidade que é a “Guerra do Tráfico”, com o povo perdido e impotente, qual marisco entre o mar e o rochedo – os traficantes armados de um lado e a polícia (também armada) mais o poder público (incompetente e corrupto) incapazes do outro. Sem falar na fome e na miséria que permanecem.
Falei em dois heróis. Tiradentes, que deu a vida pela pátria e Carolina Maria de Jesus, mulher e papeleira de São Paulo, catadora de lixo, que deu o sangue pelos filhos e pela contação de história e formação dos mitos do seu país. É preciso que as crianças, nas escolas brasileiras saibam mais sobre essas pessoas, aprendam o valor dos heróis. São muitos os heróis. Alguns poucos ganham fama e notoriedade e a maioria exercem seus ofícios de heróis anonimamente. Não tem importância. O que interessa é que as crianças saibam desde o início que o espírito do herói, daqueles que se sacrificam efetivamente em prol dos outros é fundamental para se construir uma nação de verdade.
Preciso é que se ensine nas escolas o valor dos líderes e heróis do mundo todo, que fizeram e fazem a diferença: Ghandi, Garibaldi, Tiradentes, Lincoln, Marco Polo, Simon Bolívar, Leon Tolstoi, Bach, Newton, Moisés, Jesus, Sócrates, Lao Tzu, Madre Tereza, Einstein, Marie Curie, Lênin, Miamoto Musashi, Colombo, Pasteur, Antônio Conselheiro, Bento Gonçalves, Zumbi dos Palmares, Sepé Tiarajú, Francisco de Assis, João Cândido, Érico Veríssimo, Cora Coralina, etc. Heróis dO mundo de todas as áreas da vida, na ciência, na religião, nas guerras, na literatura, nas artes, com seus erros e acertos, mas, sobretudo demonstrando aquele espírito tenaz, de pertinácia, de “loucura santa”, que os colocaram acima dos seus próprios interesses, lutando por valores maiores e ideais sublimes.
Carolina Maria de Jesus foi uma heroína brasileira, catadora de papel da estatura de uma fortaleza, aliás, como é a de muitíssimas mulheres do Brasil, que em geral levam às costas a criação e a educação dos filhos, enquanto seus homens ficam bebendo cachaça no botequim da esquina – isto me lembra de outra obra genuinamente brasileira que deveria ser OBRIGATÓRIA nas escolas; O POVO BRASILEIRO – do nosso imortal Darcy Ribeiro. Esta “obrigatoriedade” é a forma mais simples e direta de se ensinar ou “trabalhar” Valores, sem os quais não se faz um verdadeiro país.

QUARTO DE PENSÃO


Uma música antiga falava mais ou menos assim “... quando será/ o dia da minha sorte/ sei que antes da minha morte/ sei que este dia chegará/...”. Eu comecei a cantá-la para sair da morte, para reviver, teimosamente, dedilhando um cavaquinho que não me obedecia bem, mordido por centenas de mosquitos em um paupérrimo quarto de pensão.
Muitíssimos anos se passaram e eu tive inúmeros dias de muita sorte na minha vida, e nem tantas mortes mais. Mas quando se achega de novo algo assim como uma nuvem depressiva, essa música simples, um samba meio acaipirado, se bem me lembro, entra teimoso e bem-vindo em meu quartel racional, me fazendo sorrir.
Uma grande diferença era que naquele tempo, junto como o cavaquinho e os insuportáveis mosquitos, acompanhava-me uma cana brava, quase álcool puro, que eu trazia das terras catarinenses, do sertão do Macacú, em Garopaba, terra abençoada que hoje abriga meus filhos e netos.
Lupicínio, Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Clementina de Jesus, eram meus amigos de dor-de-cotovelo. Suas músicas pairavam sobre o meu “eu morto”, colocadas por uma parte viva de mim mesmo que se recusava a apodrecer de vez. Embora para mim esse tempo me pareça como uma vida passada, não me despeço jamais desses músicos e compositores. São majestades de sabedoria popular, necessárias para ajudar nas doenças da alma, pois tem um raro talento de manter uma pequena luz ou esperança em meio aos palcos de lama, quando atores que somos podemos decair dos palcos mais bem posicionados da misteriosa Vida para os palcos de segunda categoria, como também imortalizou em versos o autor de Ébrio, Vicente Celestino.
Meus palcos hoje são outros, reconheço, mas como o pobre que se deu bem na vida e jamais esquece as suas origens, sei que olho o mundo com olhos diferentes. Não sinto saudades da fossa, mas olho com respeito cada lição vivida sofrida e gozada. Uma semente vai ser uma determinada árvore de acordo com a terra, a chuva, os ventos ou a seca com a qual foi brindada. Será mais bela, ou mais rústica, meio anã, mais medrosa ou mais valente, de acordo com as suas experiências, seus tropeços e vitórias. A árvore que sou traz muita lama e bosterio, como se diria em minha terra natal, mas também tem vento forte, tradição de liberdade e uma fé inquebrantável no Deus que cada um é.

CRÔNICAS DA ALMA

Sinto-me sempre em trânsito, deste muito tempo. Às vezes parece que vou aterrar, confiar novamente, como na minha infância, mas é engano, voltam-me nostalgias de não sei que – coisa ridícula!
Tenho inveja dos normais, mas só rapidamente, pois os normais são insuportáveis, como todo mundo sabe. O que acontece é que fico sempre entre uma coisa e outra; algo maravilhoso aparece na minha mente e a minha maldita criatividade logo inventa mais oito alternativas fantásticas. Mas a vida, em geral, é muito boa, desde que não se questione demais o mundo.
Sabedoria é uma coisa perigosa. Já se viu intelectual que não seja depressivo? A porta de saída (ou de entrada) é a transcendência, sei. O problema é que a chave dessa porta tem os seus segredos e mistérios.
Pensar, sentir e agir em equilíbrio não tem sido a minha especialidade. Se eu não fosse tão transparente, tipo livro aberto, eu poderia enlouquecer mais um pouco e ganhar (ou apenas participar) de uma Bienal, ou escrever uma historia ao estilo de Kurt Vonegut Jr. Isso seria glorioso - loucura combina com talento.
Comigo combina o tango e o bandoneon. Então eu penso em aprender a ler partituras. Que facilidade eu tenho (sempre tive) de perder tempo! A música é outra porta do transcendente. Soube que existem seres, entidades, puramente música, feitas de música. Pois é, loucura mesmo, seres que não necessariamente tenham sido humanos alguma vez, ou que possam vir a ser – humanos. Eu acredito.
Por causa dos nós que sinto no coração. Falo coração por não encontrar palavras. Poderia ser alma. Conseguir transcender a matéria e tornar-me unicamente música! Argentina, brasileira, uruguaia, cubana, clássica, andina, apenas música! Com liberdade total de estagiar em todos os sons e ritmos do universo. Eu queria. Poderia viajar até um pequeno rádio de pilha e qual labareda de fogo, sair dele e lamber o coração e as lágrimas de uma jovem e bela camponesa que chora sei lá por que, talvez por ter perdido o namorado. Revolutear espiralando em busca do primeiro violino de uma orquestra sinfônica regida por Osawa, ser cada instrumento, imiscuir-me em cada fluxo ou ritmo que tenha som, ser som... ser o OM!
No entanto, estou voltando agorinha mesmo ao ritmo e ao som da minha própria respiração e observo, de soslaio, pelo olho e pelo ouvido, esse tango que toca no meu super moderníssimo aparelho de som – não posso deixar de pensar, sorrindo, na minha antiga vitrola (toca-discos) que era um móvel enorme, tão grande quanto a antiga escrivaninha, ambos no escritório da casa do meu pai, em Santa Vitória do Palmar, e o número do nosso novíssimo aparelho telefônico, recém instalado era 63 – bem, talvez 69.

O CANTO DO JOÃO DE BARRO


As vezes um sentimento inexplicável que está além da alegria ou da saudade me invade, quando escuto o canto de um pássaro. Não um pássaro qualquer, mas o canto do João de Barro, da “forneira”, do pássaro pedreiro, construtor. Quando ele canta, toda a minha infância reaparece instantaneamente e com ela o cheiro dos verdes campos do pampa, dos matos que dão abrigo ao gado e às ovelhas, das sangas que conduzem as águas aos arrozais, da vida como ela deveria ser sempre, sentida pelo coração de uma criança, cheia de confiança em si mesma e nos outros, pois não há divisão entre ela, o pássaro, a paisagem, os outros e todo o universo. A unidade!
Esse é o canto que movimenta a magia em mim. É uma associação mágica. Deduzo que se eu escutasse mais vezes esse canto, certamente esse sentimento divino estaria comigo mais vezes, e isso seria ótimo para mim e para os outros, que se relacionam comigo. Só que eu quase não escuto mais o amigo João de Barro. Não há mais espaço para ele nas grandes cidades. Será que no campo, com a invasão das máquinas e outros “instrumentos do desenvolvimento” ele também tem perdido terreno? Eu não sei exatamente, mas estimo que sim, embora numa velocidade bem menor que nos centros urbanos.
O mundo atual caminha para a desagregação, algo contrário à unidade e à própria natureza e que atualmente se expressa em tudo isso que a gente sabe e vê como o aquecimento global, a escassez de combustíveis, o terrível contraste entre a riqueza e a pobreza, essas coisas sabidas por todos. Quem procura sair da doença do mundo moderno, sem se deixar enganar pelas miragens ilusórias dos últimos modelos de aparelhos celulares, das telas planas ou, pior ainda, os comprimidos de ecstasy e correlatos, busca, na meditação, ou em estados meditativos, um retorno ao canto do João de Barro – no meu caso, claro. E você, qual seria o seu “canto do João de Barro”? Deve ter algum. Pensa! Não se distancie demasiadamente dessa magia, ou vai virar máquina, que depois se transforma em sucata.
Os indianos – pelo menos uma grande maioria deles – sabem de um segredo que eu já capturei. Dizem que “Deus é um só, mas tem mil caras...” Foi daí que eu descobri isso, que quando Deus fica condoído de mim e quer passar a mão na minha cabeça, Ele se transforma em João de Barro e canta para mim.

O BAR DO ARTURITO


Tinha que buscar um maço de Belmonte. Ou de Elmo! Uma carteira de Continental ou Holywood, todos sem filtro, que isso não existia naquela época, para o pai ou para qualquer adulto que nos pedisse, ir buscar no Arturito, quando nos interessamos tanto por aquelas carteiras de cigarros, tão lindas, coloridas. Passamos também, por moda, a coleciona-las, vazias, até que uns inventaram de fazer cintos com as carteiras. Eu mesmo nunca consegui! Interessei-me mais por aprender a fumar logo e sentir-me homem, e jamais os adultos poderiam imaginar o impacto que o Bar, os violões, o bandolim, o cavaquinho, as mesas de bilhar, os rótulos coloridos das garrafas, o cheiro de batata-frita, a intimidade da boemia, iriam influir na minha vida.
Era uma mistura de bolicho de campanha - pois tempos atrás, antes do calçamento de paralelepípedos, ainda tinha um pedaço do pau de amarrar os cavalos, na frente - com um café citadino; uma porta na frente, bem na quina da esquina, e outra lateral; a da frente dava imediatamente para as duas mesas de bilhar, uma de Cassino e outra de Carambola, com bastante espaço para os jogadores e muitas cadeiras em volta, encostadas nas paredes, para os espectadores e apostadores (esse espaço lembrava Clube), quase todos da classe popular ou gente da campanha, que vinham para um trago, um tango, um jogo, respirar a cidade, arriscar um tudo no jogo da vida, enquanto que a porta lateral era mais usada para as compras no balcão, que ficava para o fundo do Bar.
Estava numa esquina da General Osório, defronte do Açougue, de um lado, e da casa da turca, de outro, minha futura namorada, filha da Helena Estrela e do Hassain. O Arturito é um tipo corpulento, daqueles que venceu, talvez, como bolicheiro de campanha e veio se instalar na cidade, dando condição aos filhos de estudar, muito simpático e super sensível à musica: tocava bandolim, e bem, sabia solar inúmeras valsas e serestas incontáveis, não se rogava nunca se pedissem para tocar alguma, e, em qualquer hora do dia ou da noite, puxava o bandolim debaixo do balcão, em meio a um atendimento e outro, e podia lascar o Mano a Mano ou A Última Inspiração, do Peterpan. Do balcão largo, se via logo aquela porta chamativa, mais para os iniciados, que dava para o pátio lateral interno e para a cozinha, nos fundos, para outras dependências da casa, que se mantinha aberta somente nas tardezinhas, na hora do aperitivo e dos violões.
Eu chegava no balcão e via tudo isso, algumas vezes me aproximava da porta que dava para esse alpendre interno onde se sentavam geralmente dois violonistas - um era sempre o negro Pascácio e até o cego Dorado aparecia para tocar violão; outro tocava cavaco e o Arturito manejava o bandolim. Quase nunca se cantava, era um conjunto de cordas, com muito solo e bom acompanhamento, muita alegria sem alardes, que se materializavam nos sorrisos suaves de quem tocava e dos que ouviam. No resto do Bar a vida continuava normal, com o jogo sendo disputado com absoluta concentração, o barulho do giz nos tacos, as bolas grandes derrubando os cinco pauzinhos de puro marfim do centro da mesa de Cassino, o filho do Arturito dando a cobertura no balcão para o pai tocar naquela hora do Ângelus.
Peguei um violão antigo na casa da tia Edina Torino, defronte das Patellas, e não descansei enquanto não tirei um pedacinho do Mano a Mano, numa corda só - ou na bordona, ou na prima - pois não conseguia passar de uma para outra corda e além do mais o violão estava completamente desafinado. Cheguei no balcão do Bar e lasquei: — Eu toco! — Pois não é que o Arturito acreditou em mim, e me respeitou, quando eu mostrei a besteira que eu disse que sabia! Noutro dia, estava novamente a olhar os músicos e o Arturito, boca de riso farto, tirou a cadeira assim para trás, deixando-a em duas patas, e disse pra toda a turma: "esse guri toca, dá um violão pra ele que a próxima ele vai acompanhar". Meu amigo, eu nem sei como sobrevivi! Os meus pés, sentado, não tocavam no chão, o violão era enorme para o meu colo, mas ele disse: — Olha pra mim e faz o que eu faço! — deu o bandolim para outro tocar, pegou um dos violões e lá fomos nós, eu olhava e perseguia o homem, suava, levava um tempão para acomodar os meus dedos no lá menor e passar para o mi maior, que eles chamavam de segunda de lá menor, quase não conseguindo espichar os dedos no tanto para compor o dó maior de gavetão.
Andei sempre atrasado, mas o olhar confiante e o sorriso matreiro e arteiro do Arturito me fizeram ir até ao fim. Daí para frente, passei a tocar violão, da boca-pra-fora, claro. Verdade que aperfeiçoei bastante ao longo da minha vida, mas até hoje conheço as minhas deficiências intrínsecas nessa arte. Enganei a muitos ignorantes da música, na minha mocidade, engambelando-os com chavões como Malagueña e Granada, enganei-me a mim mesmo, perseguindo solos e mais solos, impossíveis para mim, e sempre perdurou aquela minha dificuldade, que descobri naquele momento, olhando e perseguindo aflito o Arturito, que era aquela coisa de não saber a hora certa, exata, de trocar o acorde, e para qual deles, e não teve remédio, só cresci um pouco, verdadeiramente, no violão, quando desci do meu orgulho de improvisador fracassado e passei a estudar. Toco por música, hoje, na linguagem mais simples, ou popular, não havia mais tempo para o aprendizado correto da música clássica, na linguagem universal e bela das harmoniosas bolinhas pretas das pautas e partituras musicais, estava velho, derrotado pela indisciplina boêmia, Villa Lobos não seria jamais para mim, e choro, em meu íntimo, por isso, mas, aprendiz da vida...

CONTO DE MESTRE. CONTO DE MACHADO DE ASSIS


PAI CONTRA MÃE

A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de  folha-deflandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber. perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a
haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com
chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim,
onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.Há meio século,
 os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos
gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos
gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de
casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da
propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se,
entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas
comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que
seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse
aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha
anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico,
se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a
quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", -- ou "receberá uma boa
gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de
preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com
todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.
Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser
instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza
implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou
estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o
acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o
impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.
Cândido Neves, -- em família, Candinho,-- é a pessoa a quem se liga a história de uma
fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um
defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade;
é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo
que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o
bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira
boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de
atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas
estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao
Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de
obtidos.
Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas,
porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para
obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições.
Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não
fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para
cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou
muito.
Contava trinta anos. Clara vinte e dous. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e
cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados
apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes,
olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O
que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos.
Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia
a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe;
algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a
outras.
O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o
possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi--
para lembrar o primeiro ofício do namorado, -- tal foi a página inicial daquele livro, que
tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e
foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que
por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo,
nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em
demasia a patuscadas.
--Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto. --Não, defunto
não; mas é que...Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre
 onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora
viesse agravar a necessidade.
--Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.
--Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara. Tia Mônica devia ter-lhes feito a
advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era
amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.
A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram
objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e
o riso digeria-se sem esforço.
Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha emprego
certo.
Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo
específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia. porém, deu sinal de si a
criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada
ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos.
--Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.
A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia
grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que,
além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força
de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era
escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.
--Vocês verão a triste vida, suspirava ela. --Mas as outras crianças não nascem também?
perguntou Clara. --Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que
pouco... --Certa como? --Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é
que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero mas
muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer.
--A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer
jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau... --Bem sei, mas somos três. --
Seremos quatro. --Não é a mesma cousa. -- Que quer então que eu faça, além do que
faço? -- Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do
armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique
zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você
passa semanas sem vintém. -- Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de
sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase
nenhum resiste, muitos entregam-se logo.
Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia
rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.
Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos,
melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a
estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço
de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às
pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido,
gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a
agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas,
via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o
nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso.
Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas
mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas
geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.
Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como
dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o
negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais,
copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor.
Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aquelespagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura.
Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelo aluguéis.
Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de
coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à
tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de
algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo
fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou
um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe
deram os parentes do homem.
--É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o
equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro
emprego.
Cândido quisera efetivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por
simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior
é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.
A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer.
Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja
narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser
mais amargos.
--Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever,
quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!
Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de
levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver
palavra mais dura de tolerar a dous jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la,
guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho
arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que
era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio. --
Titia não fala por mal, Candinho. --Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem,seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e
o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de
aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os
filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será
bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não
se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à
míngua. Enfim...
Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na
alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal
franqueza e calor,-- crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a
amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz
baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.
--Quem é? perguntou o marido. --Sou eu.
Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o
inquilino. Este quis que ele entrasse.
--Não é preciso... --Faça favor.
O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à
penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais;
se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para
regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o
que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma
inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.
--Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.
Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava
com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos
anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou
algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achourecursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não
alcançando mais que a ordem de mudança.
A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes
emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de
alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu
emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio.
Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Cândido Neves, no
desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio
seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara,
sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a
casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que
cuidassem.
Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois
nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu
em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua
dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria.
Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe
deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite
seguinte.
Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos . As gratificações pela maior
parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a
cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido.
Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio;
imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista
nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande
esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do
Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um
farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga,
três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar
como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros
fugidos de gratificação incerta ou barata.Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado.
 Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que
tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de
ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que
vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação
do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem
recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao
filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai
pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos.
Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é
que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno.
Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo. --Hei
de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas não sendo a rua infinita ou
sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que
ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na
direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida.
Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade
real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a
poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou,
achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria
buscá-la sem falta.
--Mas...
Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao
ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia
a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata
fujona. --Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.
Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de
corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Erajá impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que
andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de
costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que
a soltasse pelo amor de Deus.
--Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe
por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me
solte, meu senhor moço! -- Siga! repetiu Cândido Neves. --Me solte! --Não quero
demoras; siga!
Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava
ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia.
Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com
açoutes,--cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele
lhe mandaria dar açoutes.
--Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou
Cândido Neves.
Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele.
Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela
Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a
luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O
que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que
devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas
em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
--Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. -- É ela mesma. --Meu senhor! --Anda,
entra...
Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os
cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta milréis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia,
levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os
gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que
horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem
querer conhecer as conseqüências do desastre.
Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis
esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro
com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que
pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor.
Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para
a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida
a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é
verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga.
Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se
lhe dava do aborto.
--Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.